ESTORVO E BENJAMIM: DOIS MECANISMOS
ESTÉTICOS DA MODERNIDADE.
Maria Analice Pereira da Silva – Univ. Federal da Paraíba
No início dos anos 90 Chico Buarque se lançou no mercado como escritor, inclusive elogiado pela crítica como consta nas resenhas de Roberto Schwarz, de Augusto Massi, de Benedito Nunes, de José Paulo Paes, entre outros. Nas palavras do crítico e poeta Augusto Massi, foi um verdadeiro “acontecimento cultural”. Várias questões se fizeram presentes: Chico estaria aposentando o músico? Por que tanto marketing em torno de Estorvo? Enfim, a maioria das resenhas feitas por ocasião do lançamento do livro trazem uma série de questionamentos, afinal o que impulsiona um compositor da MPB, consolidado nacionalmente, resolver “de repente” investir numa produção literária? A questão é que a incursão de Chico na literatura não surgiu de repente. Pelo contrário, no início de carreira, Chico se aventurou no terreno literário, com o conto “Ulisses”; em 1974, com a novela Fazenda Modelo; além de peças de teatro e do livro infantil Chapeuzinho Amarelo. Enfim, Chico Buarque não se considera um compositor que faz literatura, mas um escritor que compõe músicas e que faz canções. Em entrevistas recentes, Chico depõe sobre o desejo antigo de fazer literatura - só estava esperando um momento de maturidade.
Em 1991, Chico lança Estorvo[1] e em 1995, Benjamim. Entre um romance e outro o CD Paratodos e em 1998, o CD As Cidades. Além de outros trabalhos como o Terra, um projeto realizado por ele, juntamente com Sebastião Salgado e José Saramago.
O enfoque aqui será dado aos dois romances. Estorvo e Benjamim: dois universos narrativos, dois narradores, dois pontos de vista, dois mecanismos estéticos para uma só proposta: refratar a realidade romanesca para metaforizar a sociedade real.
Comecemos por Estorvo e a pergunta chave: quem narra este romance? Estorvo é narrado pelo personagem protagonista que como os demais é inominado. Este narrador em primeira pessoa parece saber muito pouco ou nada sobre os personagens, sobre a história que conta, embora, contraditoriamente, detenha todo o âmbito da narrativa: tanto os personagens secundários quanto os mais periféricos têm suas ações, pensamentos e sentimentos perpassados pela “garganta” do narrador e, portanto, pelas suas suposições. A mente desse narrador é dramatizada porque todo o enredo se encontra nela e através dela ele irrompe a matéria romanesca.
Para mim é muito cedo, fui deitar dia claro, não consigo definir aquele sujeito através do olho mágico”. (Estorvo, p.11)
Assim inicia o romance, cujos enunciados já aludem à própria razão de ser do narrador, ou seja, já nas primeiras palavras, a indefinição está anunciada: a história é narrada por um sujeito difícil de definir e que também não consegue definir nada, por uma simples razão formal: Estorvo é narrado através de um olho mágico. A circularidade do enredo se deve a esse recurso. O protagonista perambula entre a cidade e o sítio, mas em torno de si mesmo, da sua própria trama. O seu caráter dissonante se deve inclusive a esse mecanismo porque apesar de o olho mágico conter uma lente que transparece a realidade do outro lado, este outro se apresenta deformadamente para o protagonista que está do lado de cá do mecanismo.
Com a mesma preocupação formal, mas resultando numa fatura diferente, Chico Buarque elaborou Benjamim. Apesar de ser narrado em terceira pessoa, a história se passa na mente do protagonista Benjamim Zambraia, “com a velocidade de uma bala entre a epiderme e o primeiro alvo letal” (Benjamim, p. 9) e, assim, “sua existência projetou-se do início ao fim, tal qual um filme, na venda dos olhos”. (Benjamim, p. 9).
A situação que Benjamim Zambraia vivencia, de modelo fotográfico em decadência, faz com que ele recupere uma câmera invisível criada na adolescência e abolida com a maturidade, para apresentar a sua história através de flashes. Noutras palavras, assim como em Estorvo, em Benjamim o mecanismo da lente também está presente e, mesmo sendo um elemento transparente, tal qual no olho mágico, a sua função aqui não é de refratar a realidade, mas de fragmentá-la: Benjamim Zambraia tenta reconstituir um passado, que não lhe vem à tona na sua totalidade, mas através de fragmentos, de flashes:
Retalhos de revistas e jornais cobrem os tacos do assoalho ao pé da cama. Formam uma tapeçaria decorada com um elemento obsessivo, uma figura humana que muda de flanco, de dimensões e de cenário, mas nunca de fisionomia, e essa figura é Benjamim Zambraia aos vinte e cinco anos. (Benjamim, p. 24)
Estorvo e Benjamim se utilizam, portanto, de mecanismos que servem como mediadores entre a forma e a matéria romanesca. Esses mecanismos – o olho mágico e a câmera - próprios de uma modernização, cuja função é “refratar” e/ou “filtrar” a realidade social, transformam-se em recursos narrativos que metaforizam uma sociedade fragmentada e caótica, através da distorção da realidade. Em Estorvo, através da representação de um “tipo social” que, ao narrar sua própria história, transita entre categorias, a princípio contraditórias, como passado/presente, urbano/rural, real/imaginário, sem nomear os seus personagens. A forma circular, ou mesmo “espiral”, de Estorvo, remete a isso. Em Benjamim, a proposta estética parece ser a mesma, embora o narrador se utilize de recursos diferentes: o romance é narrado em terceira pessoa e todos os personagens têm nome, embora o protagonista vivencie o drama do anonimato, após uma carreira bem sucedida de modelo.
Dessa forma, torna-se evidente nos dois romances a utilização do elemento imagético devido aos seus mecanismos estéticos: a história em Estorvo é contada através da perspectiva de um olho mágico e Benjamim através da objetiva de uma câmera - fotográfica ou cinematográfica.
Considerando que a nova sensibilidade é alimentada pelo consumismo, conforme assinala Tânia Pellegrini, pode-se dizer que a imagem (neste caso eletrônica ou correspondente a ela) é o seu principal mediador, já que o homem moderno vive no mundo da televisão, do computador e do vídeo cassete. Além disso, a imagem, como instrumento de mídia, tem tido o poder de modificar culturalmente a postura, o comportamento e a sensibilidade perceptiva e reprodutiva das pessoas:
Em outras palavras pode-se dizer que, com a mídia, está gradativamente se modificando a natureza do conhecimento, que passa a ser traduzido em quantidade de informação transmitida, na grande maioria por meio de imagens, a ponto de as coisas só existirem na mente depois de produzidas e/ou veiculadas por esses estímulos imagéticos. Desse modo altera-se a sensibilidade perceptiva, não mais atenta à realidade concreta circundante, mas à sua reprodução nas imagens. Por outro lado, devido a sua presença “concreta” dentro da realidade, a imagem apresenta-se como elemento constitutivo, um referente imediato como outro qualquer, sendo assim absorvida. É essa a essência do seu poder. (grifo da autora) [2]
Tratando-se, portanto, de uma reprodução do real, esta imagem se introduz, mesmo sutilmente, em todos os aspectos da vida cotidiana, desfazendo fronteiras, encurtando distâncias e tornando presentes, de forma simultânea, “fatos totalmente díspares”. Mas essa imagem do real reproduzida tecnicamente
fabrica uma outra realidade muito mais interessante, uma realidade que Guy Debord chama de espetacular, devido à intensificação de forma, cor e tamanho, que neutraliza a especificidade do referente. A imagem assim criada surge como duplo, como fantasmagoria, como simulacro. É a imagem do que não existe, a imagem de outra imagem. Como tal, sua virtual capacidade de manuseio e manipulação é ilimitada: funde-se, repete-se, justapõe-se, recorta-se, antecipa-se, prolonga-se, eliminado a possibilidade de surgimento de um significado novo e acentuando a presença do mesmo, sempre, ainda que muitas vezes refeito. Nesse jogo de espelhos, o horizonte entrevisto é a conformidade.[3]
Isso posto, pode-se dizer que Benjamim e Estorvo representam muito engenhosamente a nossa contemporaneidade: a reificação do ser humano que se dá através da imagem, elemento emergente do capitalismo tardio; consequentemente o desenvolvimento de um discurso espetacular e “especular”, porque como um “jogo de espelhos”, a imagem enquanto reprodução técnica do real é imagem de outra imagem[4].
Pode-se dizer, também, que os dois romances metaforizam o Brasil contemporâneo, para o qual é criada, diariamente, pelos meios de comunicação, uma verdadeira ilusão de que as desigualdades internas deixaram de existir. A metáfora disso tudo se dá sobretudo pela proposta do romancista de representar um presente “decadente” em confluência com um passado embaraçoso e fragmentado.
A caracterização da sociedade no pós-guerra tem sido objeto de intensa polêmica em torno do processo de transformação acelerado do qual resultariam a fragmentação social, a atomização e a importância cada vez maior das atividades de lazer e consumo na definição das novas identidades[5].
É em função da busca de uma definição dessas “novas identidades” que os heróis (ou anti-heróis) tanto de Estorvo quanto de Benjamim desenvolvem nessas tramas situações de sujeitos “perdidos” em meio ao caos que lhes oferece a sociedade moderna. A elaboração formal e temática dessas situações favorece a análise e interpretação dos romances à luz da perspectiva dialética com base no materialismo histórico. É sob esse prisma que desenvolvo uma dissertação de mestrado na Universidade Federal da Paraíba, sob orientação do Prof. Dr. Andrea Chiacci.
[1] BUARQUE, Chico. Estorvo. São Paulo: Companhia das Letras, 1991. Benjamim. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
[2] PELLEGRINI, Tânia. “Aspectos da produção brasileira contemporânea” In: Crítica marxista. São Paulo: Brasiliense, 1995. p. 78.
[3] Ibidem, p. 79.
[4] Cf Pellegrini.
[5] ZALUAR, Alba. “Para não dizer que não falei de samba”. In: SCHWARCZ, Lilia Moritz. (org. do volume). História da vida privada no Brasil: contrastes da intimidade contemporânea. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p. 245 –318. (História da vida privada no Brasil; 4)